Momentos cruciais de uma psicanálise-Monica Visco | DIARIO LITERARIO DIGITAL

Momentos cruciais de uma psicanálise-Monica Visco

lunes, 19 de marzo de 2018 0 comentarios

"Lacan estabelece um tripé como condição de possibilidade para o advento de um psicanalista: a análise pessoal, a supervisão e o trabalho teórico. Com o passe estas se tornaram necessárias mas não suficientes... "


Momentos cruciais de uma psicanálise

Escrito por Monica Visco, psicanalista
para Reunión Lacanoamericana – Montevideo 2015

Diario Literario Digital


1 - Introdução

Lacan estabelece um tripé como condição de possibilidade para o advento de um psicanalista: a análise pessoal, a supervisão e o trabalho teórico. Com o passe estas se tornaram necessárias mas não suficientes.
O passe no horizonte da formação do psicanalista oferece a todo aquele que termina sua análise a possibilidade de submeter-se a essa experiência em que serão verificadas nos testemunhos dos postulantes as passagens fundamentais realizadas na sua análise pessoal, principalmente a travessia da fantasia. Essa foi a primeira teorização de Lacan sobre o final de análise. Mais tarde postula a segunda, quando a ênfase vai estar na verificação do advento do desejo de analista a partir do ato que o inaugura e na identificação à sua invenção, seu Sinthome. Não creio qu as duas teorizações se contraponham, mas essa seria outra discussão. 
Introduções permitem esclarecer o leitor a respeito do tema sobre o qual versará o escrito. Vamos explorar os pontos cruciais na formação de um psicanalista na sua singularidade. No trabalho destacarei três tempos do percurso do sujeito no atravessamento do seu rubicão: faltaperda e causa e uma pequena nota para concluir.
Farei esse percurso com Shakespeare, que sempre esteve presente na minha vida com sua palavra, seu texto, seu ritmo no seu idioma. Vou me utilizar de algumas das suas peças que me ofereceram trampolins ou caminhos para elaborações que franquearam passagens fundamentais.




2 - Falta

A primeira peça será Hamlet. Trabalhei esse texto à exaustão por muitos anos. Creio que todos aqui estão familiarizados com a peça. Sabemos com Lacan quantos aspectos poderíamos privilegiar na leitura dessa obra. Mas, seguindo o percurso do sujeito, o destaque está no encontro com a mãe devoradora, que não dá lugar ao filho no seu desejo deixando-o à deriva, impossibilitado de aceder a seu próprio desejo. O pai, o ghost, confessa-lhe sua impotência frente a Gertrudes. O filho fica então aprisionado ao desejo da mãe só encontrando saída quando está ferido de morte. Apenas com a sua própria morte Hamlet consegue cavar um buraco na mãe e por um átimo de tempo apropria-se do seu desejo e realiza seu ato, matando Claudius. Com a sua morte escreve a falta na mãe. Falta no Outro necessária para que o sujeito possa advir desejante. 
Estamos falando de dramaturgia, dos andaimes e alicerces de uma peça que permitem que o sujeito localize o ponto onde o seu desejo está cativo. Do aprisionamento no desejo da mãe pôde libertar-se para viver a tragédia do seu desejo.

3 - Perda

Sobre a perda trabalharemos com O mercador de Veneza, texto escolhido por Lacan para trabalhar a libra de carne a ser perdida no final da análise na sua equivalência com o objeto a.
Recorto as cenas em que a perda de que se trata é revelada pela letra de Shakespeare e só poderá ser lida na leitura da peça em inglês. Verão adiante.
Todas essas cenas têm Shylock como personagem central. O judeu sofre todo tipo de humilhação na Veneza católica. Suporta tudo e todos com altivez. Orgulha-se desse traço que o situa na cena do mundo. Judeu, significante que o representa para o Outro.
A primeira cena que destacamos ocorre quando sua filha e maior tesouro, Jessica, o trai, apaixonando-se e fugindo com um cristão. Na fuga leva consigo todo o dinheiro e todas as preciosas joias do pai.
Shylock entra em colapso. Entra em desespero e o vemos cambaleando, desamparado, pelas ruas de Veneza, chorando a sua perda.
Não vou transcrever as linhas do texto mas chamo atenção para o que é revelado pelos significantes na leitura do original: jew significa judeu, significante mestre que o representa, e jewel significa joia, sua filha que vai metaforizar o objeto perdido. Jew e jewel por homofonia tornam-se equivalentes na escuta de um psicanalista. Jew é jewel. Algo se revela aqui para além do autor, um ponto de estrutura. 
Não é pelas joias que Shylock pranteia. A perda incide sobre o precioso judeu nele. A queda do significante mestre (jew) é sincrônica à perda de si como objeto na filha (jewel). Essa é a operação necessária a ser escrita no final da análise. No mesmo golpe a perda se escreve do lado do significante, quando o Outro comparecerá na sua inconsistência e do lado do objeto barrando o gozo que sustentava o sujeito no Outro. Operação que permitirá ao sujeito a simbolização da castração e assunção ao seu desejo.




4 - Causa 

Falarei do trabalho que realizei sobre o nome próprio e o efeito que produziu.
No Seminário da Identificação, Lacan associa o nome próprio ao hieróglifo, ao ideograma e à letra. Ele está relacionado com a marca, o traço unário e diz respeito à questão do sujeito.
Esse trabalho comparece no final da análise quando o vemos reduzido a restos. O nome próprio reduz-se a uma marca esvaziada de sentido que qualifico como sendo o que há de próprio no nome. Letra sem significação, escrita na brecha aberta do real que se abre frente ao significante da falta do Outro.
Uma formação do inconsciente, um sonho, me ofereceu a chave para que uma construção pudesse ser feita, esvaziando o edifício sintomático que fixava o sujeito na exclusão.
O sonho: minha filha acaba de nascer e recebe um nome: Jo-anna (Eu – Anna).
A partir desse sonho um relâmpago clareia o buraco escuro do enigma. Na família as outras irmãs têm o fonema an no nome, o que não é sem importância: o nome da mãe é Ann!
Esse sonho e a elaboração que se seguiu permitiram o acesso ao feminino que estava impedido pelo sintoma. O nome se fragmenta indicando a posição do sujeito no fantasma. A falta do fonema no nome próprio, que antes o excluía da série feminina da família, perde o sentido que sustentava o seu lugar na novela familiar. Deixa como resto uma letra, escrita de um vazio que toma valor de causa. Essa operação permite a transformação do nome próprio em nome comum.

5 - Para concluir, um passo a mais'-

Concluo com Shakespeare. Há uma passagem em Macbeth, no final da peça, quando ele pergunta às bruxas quem conseguirá matá-lo. Elas respondem de forma enigmática: “Você será morto por um homem que não nasceu do ventre materno”. 
Tomo emprestada essa indicação de um nascimento fora do ventre materno para afirmar que deverá ser de fora do ventre materno que a invenção de um nome poderá se dar. Palavras novas que se articularão em enunciados, produzindo um novo dizer.
Acredito que para um psicanalista há um passo a mais: a partir do seu dizer, a autoria.



Monica Visco nasceu em Salvador, Bahia - Brasil. Formou-se em Psicologia na Universidade Federal do Río de Janeiro em 1985. Deu início a sua formação psicanalítica na Escola Letra Freudiana (1986/2001) e na Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro (2001/2012). Participou da experiência do passe na posição de passante em 2009. No momento sustenta a posição de psicanalista independente trabalhando em cartel com outros analistas de diversas instituições/escolas no Brasil e na Argentina. Escreveu diversos artigos publicados em revistas como “Dizer” e “19 Bergasse”. Participou de muitos congressos nacionais e internacionais incluindo os da Convergencia (como uma das delegadas representantes da ELP-RJ de 2002/2012) e como palestrante no Lacanoamericano. Exerce sua prática clínica no Rio de Janeiro.
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